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Bishkek, a moderna capital onde herança soviética é destruída
Bishkek, a moderna capital onde herança soviética é destruída Crédito, Getty Images Legenda da foto, O atual Museu Nacional de História do Quirguistão, em Bishkek, abrigava o Museu Lenin durante a era soviética Author, Aysimbat Tokoeeva* Role, Serviço Russo da BBC Reporting from, Bishkek, Quirguistão Published Há 20 minutos Tempo de leitura: 9 min A capital do Quirguistão está no centro de um processo de apagamento de seu passado arquitetônico. Bishkek já perdeu vários grandes exemplos da arquitetura soviética, e outros monumentos também correm risco de destruição. Nos locais demolidos, avança uma intensa construção comercial. Há alguns meses, o presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, participou da inauguração de um projeto planejado para abrigar 60 mil moradores, com custo estimado em US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16,5 bilhões). O local escolhido para a construção foi o terreno do antigo e lendário hipódromo soviético Ak Kula. Dizia-se que aquele era o ponto de encontro entre a cidade e a estepe, entre a modernidade e as tradições nômades. Para alguns analistas, o Ak Kula simbolizava uma parte importante da identidade e da história do Quirguistão, pequena ex-república soviética localizada na Ásia Central. Construído em 1947, o complexo estava abandonado até então. No início da década de 2020, perdeu o status de patrimônio histórico e acabou demolido para dar lugar a um novo projeto. Na prática, qualquer hipódromo ocupa uma vasta área urbana. Os argumentos a favor de destinar esse espaço a usos considerados mais eficientes e rentáveis são relativamente simples de compreender. Mas a particularidade do novo complexo de Bishkek é que as estruturas únicas e reconhecíveis de Ak Kula, o conjunto de entrada, os edifícios administrativos e as arquibancadas, poderiam ter sido preservadas e integradas ao projeto como parte da história urbana e nacional. E esse não é um caso isolado. Nos últimos cinco anos, Bishkek perdeu ao menos nove edifícios históricos importantes, segundo estimativas de jornalistas e urbanistas. A maior parte das construções demolidas seguia o estilo arquitetônico conhecido como "classicismo soviético" ou "arquitetura stalinista", em referência a Joseph Stalin (1878-1953), que governou a antiga União Soviética. "Como seria a cidade sem esses edifícios?", questiona a premiada artista quirguiz Gulnara Musabai, de 71 anos. "Agora, vão derrubá-los e construir aqueles prédios todos iguais. Mais uma caixa de concreto armado e pronto", afirma Musabai. Crédito, Anna Karamurzina Legenda da foto, O hipódromo Ak Kula seis meses antes de ser demolido Cidade 'descartável' A gráfica Erkin-Too, construída em 1931 e responsável pela publicação do primeiro jornal do Quirguistão, está entre os edifícios demolidos. Em 2015, a gráfica perdeu o status de patrimônio histórico. O Ministério da Cultura do país afirmou que o prédio havia perdido seu valor arquitetônico, urbanístico e histórico-cultural e que não poderia ser restaurado. Também foi demolido o edifício da Escola de Música Kurenkeev, a mais antiga do país, construída em 1939 e única instituição responsável pela formação de músicos profissionais. Três monumentos icônicos também desapareceram, sem que houvesse uma justificativa clara para sua remoção. Entre eles estavam o mosaico "Recepção de Convidados", uma das fontes mais antigas de Bishkek no parque Oak, e o baixo-relevo na fachada do Teatro Dramático Russo Aitmatov. A professora de arquitetura Aigul Nasirdinova afirma que esse tipo de tratamento dado aos edifícios históricos transforma Bishkek em uma "cidade descartável", que perde gradualmente a sua diversidade cultural. "Cidades que se valorizam não destroem seus marcos arquitetônicos", diz Nasirdinova. Segundo a professora, essas construções "se acumulam como um capital que gerará retorno no futuro". O arquiteto e especialista em planejamento urbano estratégico Aibek Sydykov concorda: "Falta compreender que uma identidade preservada é um ativo de longo prazo, capaz de trazer para a cidade, no futuro, muito mais benefícios por meio do turismo e da qualidade de vida do que uma expansão acelerada da construção civil". "Precisamos deixar de tratar edifícios antigos como 'ruínas' ou um 'obstáculo ao progresso'. Na prática internacional, são construções emblemáticas que ajudam a criar a identidade de um lugar", acrescenta Sydykov. Crédito, Getty Images Legenda da foto, "A cidade está perdendo seu DNA e se transformando em um conjunto de soluções padronizadas", afirmou o arquiteto e especialista em planejamento urbano estratégico Aibek Sydykov A história perde espaço para os negócios A Lei de Proteção aos Monumentos do Quirguistão estabelece que um bem tombado adquire esse status de forma permanente. No entanto, o artigo 36 dessa lei prevê que a demolição e a reconstrução de patrimônios histórico-culturais podem ser autorizadas pelo governo "em caso de destruição repentina do monumento em consequência de desastre natural e diante do risco de perda de seu valor histórico, científico, artístico ou de outra natureza". É justamente essa brecha legal que o governo e as comissões especiais do segmento utilizam para retirar de edifícios o status de patrimônio arquitetônico ou histórico. Segundo Nasirdinova, as empresas da construção civil costumam ser as principais beneficiadas pela demolição de edifícios históricos. Muitos desses imóveis ficam na região central de Bishkek, uma área densamente urbanizada e com alguns dos metros quadrados mais caros da cidade. "[Geralmente], os monumentos arquitetônicos pertencem ao Estado e não podem ser privatizados. Eles ficam na parte central da cidade e ocupam grandes áreas", explica Nasirdinova. Mas, se um monumento desaba e é considerado irrecuperável, o terreno pode receber qualquer tipo de empreendimento. "Os monumentos arquitetônicos acabam perdendo para os interesses empresariais", afirma Nasirdinova. Ativistas e analistas concordam que a corrupção é um dos fatores centrais por trás desse processo. Segundo dados da Transparência Internacional (declarada pelo governo russo como "organização indesejável" e "agente estrangeiro"), o Quirguistão aparece de forma recorrente entre os países com piores resultados nesse aspecto. Crédito, Getty Images Legenda da foto, Detalhes da arquitetura soviética na fachada do Teatro de Ópera de Bishkek "Aqui prevalece uma lógica pragmática de lucro econômico de curto prazo. Infelizmente, dentro dessa visão, o valor do metro quadrado continua pesando mais do que o valor simbólico da história e da cultura", afirma Sydykov. Nos últimos cinco anos, os projetos de construção cresceram de forma significativa no Quirguistão. O boom imobiliário se transformou em um dos principais motores do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país. Nos últimos três anos, o PIB praticamente dobrou, passando de 1 trilhão de soms, moeda do Quirguistão, equivalente a cerca de US$ 11 bilhões (R$ 60,5 bilhões, mais ou menos equivalente ao PIB do Estado de Sergipe em 2023), para quase 2 trilhões de soms, cerca de US$ 22 bilhões (R$ 121 bilhões). Segundo dados do governo, a economia do país cresceu 11% em 2025. No setor da construção civil, a expansão no ano passado superou 21%. O DNA de Bishkek Bishkek, então chamada de Pishpek, recebeu o status de cidade em 1878. Até o início do século 20, era um assentamento formado principalmente por construções térreas. Os poucos edifícios de dois andares abrigavam órgãos administrativos ou residências de comerciantes ricos. O principal desenvolvimento urbano da cidade ocorreu durante o período soviético. Crédito, Dmitry Motinov, para o serviço russo da BBC Legenda da foto, Bishkek se desenvolveu durante o período soviético. A casa de Ilya Terentyev, primeiro prefeito eleito da cidade, em 1910, é um dos poucos edifícios anteriores à Revolução Russa que ainda permanecem de pé Sydykov explica que a paisagem urbana de Bishkek é marcada pelo modernismo soviético e pela arquitetura do chamado "classicismo socialista" ou "classicismo soviétivo", corrente arquitetônica da União Soviética entre as décadas de 1930 e 1950. "O Circo Estatal do Quirguistão, inaugurado em 1976, é um dos exemplos mais reconhecíveis do modernismo soviético na cidade. É um edifício circular com a característica cúpula em formato de 'disco voador'", afirma Sydykov. Sydykov destaca que o que torna a arquitetura de Bishkek singular não são as chamadas "caixas soviéticas", mas o modernismo desenvolvido em Frunze — antigo nome da cidade — entre as décadas de 1960 e 1980. "É uma adaptação do estilo internacional ao contexto local: brises para proteção solar, uso do concreto e ornamentos nacionais", explica Sydykov. Um dos exemplos citados por ele é a Filarmônica Estatal T. Satyganov, do Quirguistão: "É uma sala de concertos monumental, com fachada expressiva, grandes formas geométricas típicas do modernismo pós-soviético e elementos decorativos em relevo", afirma Sydykov. Por essas e outras razões, Sydykov defende: "Nossa tarefa é aprender a valorizar a história, em vez de vendê-la ao preço dos tijolos para sua demolição. O futuro de Bishkek está em sua singularidade, não em imitar megacidades sem personalidade". E acrescenta: "A cidade está perdendo seu DNA e se transformando em um conjunto de soluções padronizadas". Crédito, Dmitry Motinov, para o serviço russo da BBC Legenda da foto, O 'disco voador' do circo estatal é um exemplo clássico do modernismo soviético, e um dos edifícios mais típicos de Bishkek Apagamento da herança soviética? Tanto Japarov quanto seus aliados costumam usar a expressão "Novo Quirguistão", associada ao crescimento do PIB, ao desenvolvimento do turismo e também a reformas arquitetônicas. Ao assumir a Presidência, em 2021, Japarov anunciou a necessidade de construir um novo edifício para a administração presidencial. A inauguração oficial do novo complexo ocorreu em agosto de 2024. O prédio foi erguido no terreno onde antes funcionava o hotel Issyk-Kul, que também possuía status de patrimônio arquitetônico. Na época, o porta-voz presidencial, Erbol Sultanbaev, respondeu às críticas de moradores e de integrantes da comunidade de arquitetos afirmando que a construção do novo edifício era uma questão de "prestígio" para o país. "Quando visitamos países estrangeiros, sempre observamos com admiração seus complexos administrativos e sua arquitetura", disse Sultanbaev. "Esperamos que agora os visitantes de nossa república também nos olhem com a mesma admiração." Crédito, Governo do Quirguistão Legenda da foto, Segundo o governo, a nova sede presidencial foi projetada para impressionar visitantes estrangeiros Nos últimos cinco anos, as autoridades gastaram dezenas de milhões de dólares na construção de novos edifícios administrativos. A atenção dada aos símbolos nacionais também se refletiu na mudança da bandeira do país (que, embora não tenha sido radical, provocou reações divididas entre a população) e, em 2024, foi iniciado o processo de adoção de um novo hino nacional (atualmente, uma comissão especial continua analisando as propostas). Em 14 de abril, durante uma viagem ao sul do país, Japarov também afirmou que, no próximo ano, todas as cidades e localidades do Quirguistão com nomes soviéticos ou russos terão suas denominações alteradas. No entanto, mais tarde, o atual porta-voz presidencial, Askat Alagozov, afirmou que o chefe de Estado havia sido mal interpretado e que a medida dizia respeito apenas a uma proibição temporária de dar às vilas nomes de personalidades específicas. Quando, no ano passado, um monumento de 23 metros dedicado a Vladimir Lenin foi derrubado em Osh, segunda maior cidade do Quirguistão, alguns especialistas passaram a afirmar que o país havia iniciado um processo de "desovietização" ou "apagamento da herança soviética". Na época, tratava-se da maior estátua de Lenin da Ásia Central. A rua onde o monumento ficava também deixou de levar o nome do revolucionário que fundou a União Soviética. Crédito, Arterra/Universal Images Group via Getty Images Legenda da foto, "Cidades que se valorizam não destroem seus marcos arquitetônicos", afirma especialista diante da perda de edifícios emblemáticos da era soviética Ainda assim, bairros da capital do Quirguistão continuam com nomes soviéticos, e o monumento a Lenin permanece no centro da cidade. Além disso, em seus discursos, Japarov segue mencionando "os fundadores do Estado, os heróis da União Soviética, os mestres da prosa e os heróis populares", sem excluir nenhum desses grupos. Por isso, afirmar que o desmonte e a demolição da arquitetura soviética fazem parte de um programa ideológico seria, no mínimo, precipitado. "O processo de 'desovietização' não está sendo conduzido de maneira consciente e estruturada no plano político no Quirguistão", afirma Elmira Abylbek, diretora do projeto de pesquisa histórica Esimde. "Existem diferentes debates e narrativas, mas não em nível estatal. Continuamos sendo muito leais à antiga metrópole. Ao mesmo tempo, avançam processos de 'retorno a si mesmo', voltados para a preservação e o fortalecimento da língua, da cultura e da história", acrescenta. "Não se trata necessariamente de um movimento de oposição a algo, muito menos de forma agressiva, mas de uma recuperação de nossa própria identidade."
Dólar hoje: moeda fecha no menor nível desde 2 de agosto
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você Gerando resumo Abrir o resumo Dólar (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil) O dólar à vista apresentou queda superior a 1% na sessão desta segunda-feira, 20, mais do que devolvendo os ganhos da última sexta-feira, e fechou no menor nível desde o início de agosto. O dia foi marcado pelo enfraquecimento da moeda americana frente a divisas fortes e emergentes, em meio ao avanço de commodities diante da expectativa de estímulos ao setor imobiliário na China. Operadores relataram entrada de fluxo para a bolsa doméstica e internalização de recursos por parte de exportadores. Leia mais PUBLICIDADE Com a agenda doméstica esvaziada, investidores trabalharam de olho na perspectiva de avanço da agenda econômica no Congresso, com possível votação do relatório do projeto de lei que taxa fundos offshore na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, amanhã, e do parecer final da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) na Comissão Mista de Orçamento (CMO), na quarta-feira, 22. Lá fora, as atenções se voltam para a divulgação, amanhã, da ata do encontro de política monetária do Federal Reserve em 1º de novembro. Após leituras benignas de inflação nos EUA na semana passada, ganhou força a ideia de que o BC americano já encerrou seu ciclo de alta de juros. Especula-se agora com eventual início de processo de corte ainda no primeiro semestre. A semana é mais curta para o mercado dos EUA com o feriado do Dia de Ação de Graças, na quinta-feira, 23. Em queda desde a abertura, o dólar rompeu o piso de R$ 4,85 à tarde em meio à máximas do Ibovespa e das Bolsas em Nova York, após a virada das taxas dos Treasuries mais longos para o campo negativo. Leilão do Tesouro dos EUA de papéis de 20 anos teve demanda acima da média, o que significa redução de prêmios, algo favorável a ativos emergentes. Com mínima a R$ 4,8480, a moeda fechou em baixa de 1,10%, cotada a R$ 4,8517 - menor valor de fechamento desde 2 de agosto (R$ 4,8055). A liquidez foi muito reduzida, em razão do feriado do Dia da Consciência Negra no Estado de São Paulo. Publicidade Segundo o analista de câmbio Elson Gusmão, da corretora Ourominas, não houve alterações no quadro doméstico que justificassem a apreciação do real hoje. "O mercado operou muito de olho no cenário externo. Amanhã tem a ata do Fed, e o mercado já especula uma queda de juros nos EUA para maio de 2024", diz Gusmão, ressaltando que, com a liquidez reduzida, "qualquer movimentação acaba fazendo preço." "Com a queda de hoje, podemos ver amanhã uma demanda grande de empresas por dólar para fazer remessas de lucros e dividendos. Esse patamar de R$ 4,85 é muito atrativo".
Depois da Superquarta: o corte veio, mas a credibilidade aguenta? – Money Times
No Brasil, o Copom entregou o corte de 25 pontos-base e levou a Selic para 14,25% ao ano. A decisão, em si, estava dentro do radar (Imagem: REUTERS/Adriano Machado) A Superquarta veio e foi embora, mas deixou uma conclusão mais importante do que a simples fotografia das decisões de juros: o mundo ainda não voltou ao conforto monetário que muitos investidores gostariam de enxergar. CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE ]O acordo provisório entre Estados Unidos e Irã reduziu o risco de uma interrupção prolongada no Estreito de Ormuz, ajudou a aliviar parte do prêmio do petróleo e retirou dos mercados um risco extremo. Isso é positivo. Mas positivo não significa suficiente. A crise no Oriente Médio já havia feito seu trabalho. Energia mais cara, seguros de navegação mais elevados, cadeias logísticas tensionadas e expectativas de inflação mais sensíveis não desaparecem no dia seguinte a um memorando diplomático. Mesmo que a rota energética volte gradualmente à normalidade, o choque já contaminou a discussão dos bancos centrais. É por isso que a Superquarta deve ser lida menos como um ponto de virada benigno e mais como um teste de credibilidade para as autoridades monetárias. Nos Estados Unidos, nasceu um Fed menos previsível Nos Estados Unidos, a decisão do Federal Reserve não surpreendeu: os juros foram mantidos no intervalo entre 3,50% e 3,75%. A surpresa esteve no tom. Sob Kevin Warsh, em sua primeira reunião à frente da autoridade monetária, o Fed sinalizou uma mudança importante de postura. CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE O comitê ficou mais preocupado com a persistência da inflação, revisou projeções para cima e mostrou que o espaço para cortes ficou muito mais estreito. O ponto mais relevante foi a mudança no regime de comunicação. O Fed retirou a inclinação implícita a cortes, reduziu o forward guidance e passou a depender ainda mais dos dados. Para o investidor pessoa física, isso significa o seguinte: o banco central americano está dizendo que não quer mais prometer o caminho dos juros com tanta antecedência. Em vez disso, prefere preservar flexibilidade para reagir à inflação, ao mercado de trabalho e às condições financeiras. Essa mudança importa porque os mercados vinham operando com a expectativa de que a próxima etapa natural seria a retomada dos cortes. CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE Depois da reunião, essa hipótese ficou bem menos confortável. Com inflação ainda acima da meta, atividade resiliente e investimentos fortes, especialmente em tecnologia e infraestrutura, o Fed não tem pressa para aliviar. Pior: parte do mercado passou a tratar novas altas de juros como um cenário possível, ainda que não necessariamente provável. O Copom cortou, mas a comunicação ficou no meio do caminho No Brasil, o Copom entregou o corte de 25 pontos-base e levou a Selic para 14,25% ao ano. A decisão, em si, estava dentro do radar. O debate começa na comunicação. O Banco Central reconheceu um ambiente mais difícil: atividade acima do esperado, mercado de trabalho resiliente, expectativas de inflação deterioradas, projeções mais altas e quadro fiscal mais desafiador. Em tese, esse diagnóstico recomendaria uma postura claramente mais restritiva. Ainda assim, o comunicado não fechou completamente a porta para novos cortes. O comitê elevou a régua para novas reduções, mas preservou flexibilidade. CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE Essa escolha pode ser defensável se a inflação ceder, se o câmbio ajudar e se o fiscal não piorar. O problema é que, hoje, o conjunto da obra ainda é desconfortável. A inflação segue acima da meta, as expectativas continuam frágeis e o fiscal permanece como principal fonte de incerteza doméstica. Em outras palavras, o corte veio. A dúvida é se a credibilidade aguenta uma comunicação que, ao mesmo tempo, reconhece a piora dos fundamentos e deixa a porta entreaberta para novos estímulos. O risco é o mercado interpretar essa flexibilidade como tolerância maior com a inflação. Se isso acontecer, o custo aparecerá rapidamente no câmbio, nos juros longos e nos ativos mais sensíveis à queda da Selic. Paz ajuda o humor, mas política monetária manda no ciclo O acordo entre Estados Unidos e Irã melhora o ambiente externo, mas não muda a principal conclusão da semana: a política monetária voltou a comandar o preço dos ativos. CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE A paz reduz o risco de cauda, derruba parte do prêmio do petróleo e favorece uma recomposição de apetite por risco. Mas, se os bancos centrais mantêm uma postura dura, o rali tende a ser mais seletivo e menos linear. Essa diferença é crucial. Quando os juros caem de forma previsível, o mercado costuma antecipar melhora para quase tudo: bolsa, crédito, small caps, fundos imobiliários e ativos de maior duration. Quando os juros ficam altos por mais tempo, a seleção volta a importar. Empresas com balanço forte, geração de caixa, poder de preço e menor dependência de financiamento tendem a atravessar melhor o ambiente. Já teses que dependem de corte rápido de juros sofrem mais. No Brasil, isso é especialmente importante. A curva de juros ainda carrega prêmio fiscal elevado, a inflação segue distante da meta e a eleição começa a entrar no radar dos investidores. O real pode se beneficiar do alívio geopolítico, mas precisa de credibilidade doméstica para sustentar ganhos. CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE A bolsa pode reagir a um petróleo mais baixo e a algum alívio externo, mas continuará separando qualidade de fragilidade. Não basta a notícia boa lá fora; é preciso que a política econômica aqui dentro ajude. No final, a Superquarta confirmou que o pior risco geopolítico pode ter ficado para trás, mas também mostrou que o mundo não voltou ao regime de dinheiro fácil. O Fed iniciou a era Warsh com menos promessas e mais ênfase em estabilidade de preços. O Copom cortou, mas deixou uma mensagem que ainda precisará ser testada pelos dados e pela reação do mercado. No fundo, a paz no Oriente Médio reduz o choque, mas não apaga a inflação; e a queda pontual do petróleo ajuda, mas não substitui credibilidade. Para o investidor, a mensagem é de disciplina. O ambiente continua oferecendo oportunidades, mas exige mais seletividade. Não é um cenário para abandonar risco indiscriminadamente, nem para comprar qualquer ativo apenas porque os juros podem cair um dia. CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE É um mercado em que qualidade, previsibilidade, balanço sólido e geração de caixa voltam a valer mais. A Superquarta passou; agora começa a parte mais difícil: provar que a inflação pode convergir sem que os bancos centrais precisem apertar ainda mais o torniquete monetário. CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE